O menino que queria voar
Ninguém nasce com vergonha.
Ela não vem no berço.
Não mora no sangue.
Não faz parte do corpo.
Ela chega devagar.
Chega no primeiro brinquedo arrancado da mão.
No primeiro “isso é coisa de menina”.
Na primeira gargalhada que não era de alegria, mas de deboche.
E o menino aprende.
Aprende que sua liberdade incomoda.
Então ele deixa de correr do jeito que corria.
Esconde o riso.
Endurece os gestos.
Engole a dança.
Não porque deixou de gostar.
Mas porque descobriu que, para algumas pessoas, existir do seu jeito era motivo suficiente para apanhar.
O mundo diz que ele precisa ser homem.
Mas nunca explica por que ser homem exige abandonar a ternura.
Por que um abraço precisa ser menor.
Por que a voz precisa ser mais grossa.
Por que o corpo precisa pedir desculpas por ser delicado.
Assim, um menino começa a desaparecer.
Não de uma vez.
Desaparece em pequenas renúncias.
Toda vez que deixa de brincar.
Toda vez que troca a espontaneidade pelo medo.
Toda vez que escolhe o silêncio para sobreviver.
Anos passam.
Todos veem um adulto.
Mas, por dentro, ainda existe aquela criança olhando para o recreio, perguntando a si mesma:
“Se eu fosse exatamente quem eu sou… alguém ainda me amaria?”
Essa talvez seja a violência mais cruel.
Não é apenas a dor dos golpes.
É fazer uma criança acreditar que ela precisa abandonar a própria verdade para merecer proteção.
Nenhum menino deveria crescer aprendendo que seu jeito de rir pode ser perigoso.
Nenhum menino deveria ensaiar a própria voz antes de falar.
Nenhum menino deveria trocar a alegria pela vigilância.
Porque uma infância não termina quando os brinquedos acabam.
Ela termina quando o medo ocupa o lugar da liberdade.
E quando um menino deixa de brincar para aprender a sobreviver…
todos nós, como sociedade,
perdemos um pedaço da humanidade.
