sexta-feira, 3 de julho de 2026

A cadeira não era o destino . Era um convite

A cadeira não era o destino. Era um convite.

Há dias em que a vida não faz barulho.

Ela apenas sorri.

E ontem, enquanto vestia o traje acadêmico, percebi que não estava colocando uma veste de honra. Estava vestindo todas as histórias que me trouxeram até aqui.

Vestia o menino que acreditava que o teatro podia mudar pessoas.

Vestia o jovem que descobriu, na escrita, um lugar para guardar as dores que não cabiam na voz.

Vestia cada personagem que me ensinou que a arte nunca é sobre quem está no palco, mas sobre quem sai dele diferente.

Na Câmara Municipal de Sorocaba, tomei posse como acadêmico da Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil.

Confesso que, por alguns instantes, olhei ao redor e pensei em quantas vezes a vida pareceu improvável. Quantas portas fechadas, quantos medos, quantas vezes achei que não seria suficiente.

Mas a palavra sempre me encontrou.

Ela me encontrou no teatro.

Nos livros.

Nas crianças.

Nas escolas.

Nos abraços depois dos espetáculos.

Nos silêncios de quem não conseguia dizer o que sentia.

Foi ela quem me trouxe até essa cadeira.

Não porque eu tenha chegado ao fim de uma caminhada, mas porque ainda há muito para escrever.

Uma academia é feita de intelectuais.

Mas, antes disso, precisa ser feita de pessoas.

Pessoas capazes de enxergar beleza onde muitos veem apenas rotina.

Capazes de transformar conhecimento em afeto.

Capazes de entender que cultura não é luxo. É alimento da alma.

Recebo essa honraria com gratidão, mas também com responsabilidade.

Porque cada medalha pesa menos que o compromisso que ela representa.

Continuarei escrevendo.

Continuarei contando histórias.

Continuarei acreditando que uma peça de teatro, um poema, um livro ou uma simples palavra ainda podem mudar uma vida inteira.

Ontem, uma cadeira recebeu meu nome.

Hoje, meu coração continua exatamente no mesmo lugar: ao lado daqueles que acreditam que o mundo pode ser reescrito pela arte.

E talvez seja isso que realmente significa tornar-se um acadêmico.

Não guardar palavras.

Mas colocá-las a serviço da esperança.



terça-feira, 30 de junho de 2026

O menino que queria voar

O menino que queria voar

Ninguém nasce com vergonha.

Ela não vem no berço.
Não mora no sangue.
Não faz parte do corpo.

Ela chega devagar.

Chega no primeiro brinquedo arrancado da mão.
No primeiro “isso é coisa de menina”.
Na primeira gargalhada que não era de alegria, mas de deboche.

E o menino aprende.

Aprende que sua liberdade incomoda.

Então ele deixa de correr do jeito que corria.
Esconde o riso.
Endurece os gestos.
Engole a dança.

Não porque deixou de gostar.

Mas porque descobriu que, para algumas pessoas, existir do seu jeito era motivo suficiente para apanhar.

O mundo diz que ele precisa ser homem.

Mas nunca explica por que ser homem exige abandonar a ternura.

Por que um abraço precisa ser menor.
Por que a voz precisa ser mais grossa.
Por que o corpo precisa pedir desculpas por ser delicado.

Assim, um menino começa a desaparecer.

Não de uma vez.

Desaparece em pequenas renúncias.

Toda vez que deixa de brincar.
Toda vez que troca a espontaneidade pelo medo.
Toda vez que escolhe o silêncio para sobreviver.

Anos passam.

Todos veem um adulto.

Mas, por dentro, ainda existe aquela criança olhando para o recreio, perguntando a si mesma:

“Se eu fosse exatamente quem eu sou… alguém ainda me amaria?”

Essa talvez seja a violência mais cruel.

Não é apenas a dor dos golpes.

É fazer uma criança acreditar que ela precisa abandonar a própria verdade para merecer proteção.

Nenhum menino deveria crescer aprendendo que seu jeito de rir pode ser perigoso.

Nenhum menino deveria ensaiar a própria voz antes de falar.

Nenhum menino deveria trocar a alegria pela vigilância.

Porque uma infância não termina quando os brinquedos acabam.

Ela termina quando o medo ocupa o lugar da liberdade.

E quando um menino deixa de brincar para aprender a sobreviver…

todos nós, como sociedade,

perdemos um pedaço da humanidade.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

O menino que aprendeu a fugir

O Menino que Aprendeu a Fugir

Eu não fugia da bola.
Eu fugia dos olhos.

Daquele silêncio que vinha depois de um chute errado,
como se um erro qualquer
fosse a prova definitiva
de que eu não era homem o bastante.

A quadra nunca foi apenas uma quadra.
Era um tribunal.

Cada corrida era julgada.
Cada gesto, medido.
Cada palavra, pesada.
Cada riso, investigado.

Antes de descobrir quem eu amava,
eu já sabia
que havia algo em mim
que incomodava o mundo.

Então aprendi a sobreviver.

Fingia dor para não entrar em campo.
Ria das piadas que me machucavam.
Tentava engrossar a voz.
Diminuía as mãos.
Encolhia os sonhos.

Passei anos tentando caber
num uniforme
que nunca foi feito para mim.

Diziam que eu odiava futebol.

Mas eu não odiava o futebol.

Eu odiava o medo.

O medo de errar.
O medo de confirmar o que diziam.
O medo de ouvir meu nome virar apelido.
O medo de voltar para casa
carregando uma vergonha
que nunca me pertenceu.

Há feridas que não deixam cicatriz na pele.

Ficam escondidas
na maneira como alguém anda,
na dificuldade de ocupar espaço,
no pedido de desculpas
por simplesmente existir.

E, mesmo depois de adulto,
às vezes ainda existe um menino
que entra numa sala
procurando uma rota de fuga,
como se ainda estivesse
naquela aula de educação física.

Mas um dia ele entende.

Que não era fraco.
Não era errado.
Não era menos homem.

Era apenas uma criança
tentando sobreviver
onde deveria apenas brincar.

E quando esse menino,
já homem,
olha para trás,
ele não encontra um covarde.

Encontra um sobrevivente.

Alguém que atravessou o preconceito
sem deixar morrer completamente
a delicadeza.

Porque a coragem
nunca foi acertar o gol.

A coragem foi continuar vivendo
quando o mundo insistia
em fazê-lo acreditar
que havia algo de errado
em ser exatamente quem era.

E, no dia em que ele para de fugir,
a maior vitória acontece.

Não na quadra.

Mas dentro do próprio coração.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

JÚNIOR MOSKO É EMPOSSADO ACADÊMICO DA ACADEMIA DOS INTELECTUAIS E ESCRITORES DO BRASIL

JÚNIOR MOSKO É EMPOSSADO ACADÊMICO DA ACADEMIA DOS INTELECTUAIS E ESCRITORES DO BRASIL

Ator, diretor, produtor cultural, pesquisador e escritor passa a integrar uma das mais importantes instituições voltadas à valorização do conhecimento e da cultura no país

A trajetória de mais de quatro décadas dedicada às artes, à educação e à cultura acaba de ganhar mais um importante capítulo. O empresário, ator, diretor, produtor cultural, pesquisador, escritor e apresentador Júnior Mosko foi eleito para integrar a Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil (AIEB), passando a fazer parte do seleto grupo de acadêmicos da instituição.

A posse acontecerá durante Sessão Solene na Câmara Municipal de Sorocaba, reunindo autoridades, intelectuais, escritores, artistas e representantes da sociedade civil em uma celebração que marca não apenas os três anos de fundação da Academia, mas também o reconhecimento de personalidades que contribuíram significativamente para o desenvolvimento cultural e intelectual do país.

Natural de Tatuí, conhecida nacionalmente como a Capital da Música, Júnior Mosko construiu uma carreira sólida e multifacetada. Seu nome tornou-se referência no cenário artístico brasileiro por sua atuação no teatro, na televisão, na educação e na gestão cultural.

Formado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), onde ingressou entre os primeiros colocados de sua turma, Mosko prosseguiu sua formação acadêmica até alcançar os títulos de Mestre e Doutor em Artes Cênicas. Sua trajetória acadêmica foi orientada pela professora Dra. Ingrid Dormien Koudela, uma das maiores especialistas brasileiras em pedagogia teatral e estudos da obra de Viola Spolin.

Vinte anos transformando vidas através da arte

Um dos capítulos mais marcantes de sua carreira foi sua atuação à frente do Núcleo de Artes Cênicas do SESI Sorocaba, onde permaneceu por duas décadas, entre 2001 e 2020.

Durante esse período, liderou projetos que impactaram milhares de estudantes, professores e artistas, consolidando Sorocaba como um dos principais polos de formação teatral do interior paulista.

Entre suas principais realizações destacam-se a criação do Festival Nacional Curta Teatro, do Festival Nacional Curta Dança e do Festival Estudantil SESI Sorocaba de Teatro. Este último alcançou 17 edições consecutivas e tornou-se objeto de pesquisa acadêmica em seu mestrado na USP, evidenciando a importância dos festivais estudantis como instrumentos de formação cultural e cidadã.

Também foi idealizador do projeto “Nós na Fila”, iniciativa inovadora que transformava o tempo de espera do público antes dos espetáculos em momentos de interação artística por meio da música e do teatro.

Representando o Brasil no cenário internacional

A atuação de Júnior Mosko extrapolou as fronteiras nacionais.

Seu trabalho levou o nome de Sorocaba, do SESI e da cultura brasileira para países como Portugal, Venezuela e Chile, onde participou de encontros, festivais e intercâmbios culturais.

Entre 2001 e 2010, exerceu o cargo de Secretário-Geral do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo (SATED-SP), desempenhando papel importante na defesa dos direitos dos profissionais da cultura.

No mesmo período, representou o Brasil junto à Federação Internacional de Atores (FIA) e à Federação Ibero-Americana de Artistas (FIA-LA), participando de discussões internacionais sobre políticas culturais, direitos dos artistas e fortalecimento das artes cênicas em âmbito mundial.

Fazendo Arte: um legado que continua

Após sua aposentadoria do SESI, em 2020, Mosko não diminuiu o ritmo de trabalho.

Ao contrário, fortaleceu ainda mais sua atuação por meio da Associação Cultural Fazendo Arte e da Escola Fazendo Arte com Júnior Mosko, instituições que desenvolvem projetos voltados à formação artística, produção cultural, inclusão social e democratização do acesso à cultura.

Seu trabalho continua formando novas gerações de atores, produtores culturais e cidadãos conscientes do papel transformador da arte na sociedade.

Reconhecimento e homenagens

Ao longo da carreira, Júnior Mosko recebeu inúmeras homenagens por sua contribuição à cultura, à educação e ao desenvolvimento humano.

Entre elas destacam-se a Medalha de Mérito Estudantil Dr. Enéas Carneiro, concedida em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à educação, e o título de Comendador de Honrarias e Mérito, conferido pelo Conselho Estadual de Honrarias e Mérito (CEHM).

Também recebeu os títulos de Cidadão Sorocabano e Cidadão da Estância Turística de Quadra, além de diversas homenagens concedidas por entidades culturais, educacionais e governamentais.

Em março de 2024 foi homenageado pela Câmara Municipal de Sorocaba durante as celebrações do Dia Internacional do Teatro, em reconhecimento à sua contribuição para as artes cênicas e para o desenvolvimento cultural da cidade.

Reconhecimento de uma vida dedicada à cultura

A posse na Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil representa o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação, estudo, compromisso social e amor pela arte.

Ao longo de sua vida, Júnior Mosko transformou palcos em salas de aula, espetáculos em instrumentos de cidadania e projetos culturais em oportunidades para milhares de pessoas.

Sua eleição para a AIEB reafirma a importância de sua contribuição para a cultura brasileira e consolida seu nome entre os profissionais que dedicaram suas vidas à construção de uma sociedade mais humana, crítica e culturalmente enriquecida.

Mais do que um reconhecimento individual, a homenagem celebra o poder transformador da arte, da educação e do conhecimento — valores que sempre nortearam a trajetória de Júnior Mosko.


terça-feira, 5 de maio de 2026

Ser artista não é

Ser artista vai muito além de aplausos, holofotes, televisão, cinema ou ter o rosto estampado em cartazes.

Arte não nasce do ego. Arte nasce da coragem.


Coragem de sentir demais em um mundo que ensina as pessoas a se anestesiarem.
Coragem de pensar diferente em uma sociedade que premia quem apenas repete padrões.
Coragem de viver intensamente enquanto muitos apenas sobrevivem.


Ser artista é acreditar em possibilidades quando todos enxergam limites.
É transformar dor em expressão, silêncio em voz, cicatriz em criação.
É recusar uma vida vazia, baseada em aparências, relacionamentos rasos e verdades inventadas para agradar os outros.


Porém, existem pessoas que desistem de viver muito antes de morrer.
Pessoas que chegam ao fim de si mesmas quando ainda poderiam ter ido muito mais longe.
Se apagam aos poucos, aceitando uma existência sem propósito, sem verdade e sem intensidade.


Nem todos estão preparados para isso.
Porque ser artista exige enfrentar a própria alma sem máscaras.
Exige sensibilidade em um mundo frio.
Exige verdade em tempos onde a mentira virou conforto.


Muitos preferem viver das sobras:
sobras de sonhos, sobras de emoções, sobras de coragem.
Aceitam vidas pequenas para caberem na expectativa da sociedade.
Mas o artista não nasceu para caber.
Nasceu para transbordar.


Ser artista é viver de verdade.
É sentir o peso e a beleza da existência sem fugir dela.
É transformar a própria vida em mensagem.


Arte não é status.
Arte é resistência.
É liberdade.
É alma.