O Menino que Aprendeu a Fugir
Eu não fugia da bola.
Eu fugia dos olhos.
Daquele silêncio que vinha depois de um chute errado,
como se um erro qualquer
fosse a prova definitiva
de que eu não era homem o bastante.
A quadra nunca foi apenas uma quadra.
Era um tribunal.
Cada corrida era julgada.
Cada gesto, medido.
Cada palavra, pesada.
Cada riso, investigado.
Antes de descobrir quem eu amava,
eu já sabia
que havia algo em mim
que incomodava o mundo.
Então aprendi a sobreviver.
Fingia dor para não entrar em campo.
Ria das piadas que me machucavam.
Tentava engrossar a voz.
Diminuía as mãos.
Encolhia os sonhos.
Passei anos tentando caber
num uniforme
que nunca foi feito para mim.
Diziam que eu odiava futebol.
Mas eu não odiava o futebol.
Eu odiava o medo.
O medo de errar.
O medo de confirmar o que diziam.
O medo de ouvir meu nome virar apelido.
O medo de voltar para casa
carregando uma vergonha
que nunca me pertenceu.
Há feridas que não deixam cicatriz na pele.
Ficam escondidas
na maneira como alguém anda,
na dificuldade de ocupar espaço,
no pedido de desculpas
por simplesmente existir.
E, mesmo depois de adulto,
às vezes ainda existe um menino
que entra numa sala
procurando uma rota de fuga,
como se ainda estivesse
naquela aula de educação física.
Mas um dia ele entende.
Que não era fraco.
Não era errado.
Não era menos homem.
Era apenas uma criança
tentando sobreviver
onde deveria apenas brincar.
E quando esse menino,
já homem,
olha para trás,
ele não encontra um covarde.
Encontra um sobrevivente.
Alguém que atravessou o preconceito
sem deixar morrer completamente
a delicadeza.
Porque a coragem
nunca foi acertar o gol.
A coragem foi continuar vivendo
quando o mundo insistia
em fazê-lo acreditar
que havia algo de errado
em ser exatamente quem era.
E, no dia em que ele para de fugir,
a maior vitória acontece.
Não na quadra.
Mas dentro do próprio coração.