A cadeira não era o destino. Era um convite.
Há dias em que a vida não faz barulho.
Ela apenas sorri.
E ontem, enquanto vestia o traje acadêmico, percebi que não estava colocando uma veste de honra. Estava vestindo todas as histórias que me trouxeram até aqui.
Vestia o menino que acreditava que o teatro podia mudar pessoas.
Vestia o jovem que descobriu, na escrita, um lugar para guardar as dores que não cabiam na voz.
Vestia cada personagem que me ensinou que a arte nunca é sobre quem está no palco, mas sobre quem sai dele diferente.
Na Câmara Municipal de Sorocaba, tomei posse como acadêmico da Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil.
Confesso que, por alguns instantes, olhei ao redor e pensei em quantas vezes a vida pareceu improvável. Quantas portas fechadas, quantos medos, quantas vezes achei que não seria suficiente.
Mas a palavra sempre me encontrou.
Ela me encontrou no teatro.
Nos livros.
Nas crianças.
Nas escolas.
Nos abraços depois dos espetáculos.
Nos silêncios de quem não conseguia dizer o que sentia.
Foi ela quem me trouxe até essa cadeira.
Não porque eu tenha chegado ao fim de uma caminhada, mas porque ainda há muito para escrever.
Uma academia é feita de intelectuais.
Mas, antes disso, precisa ser feita de pessoas.
Pessoas capazes de enxergar beleza onde muitos veem apenas rotina.
Capazes de transformar conhecimento em afeto.
Capazes de entender que cultura não é luxo. É alimento da alma.
Recebo essa honraria com gratidão, mas também com responsabilidade.
Porque cada medalha pesa menos que o compromisso que ela representa.
Continuarei escrevendo.
Continuarei contando histórias.
Continuarei acreditando que uma peça de teatro, um poema, um livro ou uma simples palavra ainda podem mudar uma vida inteira.
Ontem, uma cadeira recebeu meu nome.
Hoje, meu coração continua exatamente no mesmo lugar: ao lado daqueles que acreditam que o mundo pode ser reescrito pela arte.
E talvez seja isso que realmente significa tornar-se um acadêmico.
Não guardar palavras.
Mas colocá-las a serviço da esperança.