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Marquês de Sapucaí
— Entre o Brilho e a Perda da Essência
Durante décadas, a Marquês de Sapucaí foi mais do que um palco de desfiles — foi ponto de encontro de grandes artistas, intelectuais, empresários, políticos e formadores de opinião. O carnaval, enquanto uma das maiores manifestações culturais do Brasil, reunia ali não apenas foliões, mas nomes que compreendiam a grandeza simbólica daquele espaço.
Os camarotes tinham glamour, mas também tinham critério. As frisas eram território de quem queria ver o desfile de perto, sentir a vibração da bateria, perceber o detalhe da fantasia, acompanhar a evolução da escola. Havia festa, claro — mas havia sobretudo respeito à avenida.
Hoje, o que se observa é um fenômeno curioso e preocupante: a transformação do espaço cultural em vitrine social. A ascensão dos chamados “influenciadores digitais” — muitos sem qualquer ligação com o samba ou com a cultura carnavalesca — alterou profundamente a dinâmica dos camarotes. O foco deixou de ser o desfile e passou a ser o enquadramento da câmera.
Não se trata de saudosismo gratuito, mas de uma mudança perceptível de comportamento. O que antes era encontro e apreciação virou superlotação, consumo em excesso e música paralela que compete com a bateria da escola. O “vip” perdeu o significado. Em muitos casos, o status parece comprado — seja em dinheiro, seja em exposição digital.
Enquanto isso, parte das verdadeiras personalidades — aquelas que não precisam provar pertencimento — opta por frisas, cadeiras numeradas ou até arquibancadas. Lá, podem assistir ao desfile com atenção, sem disputa por espaço, sem a necessidade de performar para as redes sociais.
Há ainda outro contraste marcante: as grandes estrelas do carnaval continuam sendo as pessoas da comunidade. São elas que costuram fantasias, ensaiam meses, carregam alegorias, sustentam a tradição. A rainha de bateria da comunidade, que vive o samba o ano inteiro, muitas vezes representa mais a essência da festa do que figuras momentâneas que surgem apenas para a fotografia e desaparecem após os likes.
A crítica não é à modernidade, nem à presença de novos públicos. O carnaval sempre foi democrático. O problema é quando a superficialidade se sobrepõe ao conteúdo; quando o espetáculo vira pano de fundo para autopromoção; quando a experiência coletiva é substituída pela busca individual por visibilidade.
Talvez as grandes personalidades não tenham “sumido”. Talvez apenas tenham escolhido lugares mais silenciosos, onde ainda seja possível ouvir o surdo da bateria sem interferências. Ou talvez estejam aguardando que o pêndulo cultural retorne ao equilíbrio.
O carnaval resiste porque nasce da comunidade. A avenida continua brilhando porque há quem acredite nela além do camarote. E enquanto houver quem viva o samba de verdade — não apenas quem o use como cenário — a essência jamais desaparecerá.
A pergunta que fica é: estamos indo à Sapucaí para viver o carnaval ou para parecer que estivemos lá?