quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Então é Natal

Então é Natal.

Chegou a noite esperada —

mas chegou com passos leves,

como quem tem medo de acordar a saudade.


Era o primeiro Natal sem a presença física do papai,

que nos deixou este ano

e ficou morando onde o tempo não alcança.


A família inteira reunida.

Éramos onze.

Agora somos dez.

Um número que pesa,

não pelo que falta na mesa,

mas pelo espaço vazio no coração.


Mamãe estava linda.

Linda como sempre.

Mas havia no olhar um ponto distante,

um lugar onde ela escondia a dor

para que ninguém percebesse.

Mães fazem isso:

seguram o mundo para que os filhos não vejam ruir.


Inventamos risos.

Criamos um amigo secreto invertido.

Foi divertido.

Tentamos vestir a noite de descontração,

como quem coloca flores numa ferida

para que ela doa menos.


Estávamos ali,

na beira da piscina —

um dos lugares onde mais nos reunimos,

onde tantas histórias já ecoaram.


Então é Natal.

Com abraços contidos.

Sem muito barulho.

Porque a ausência também faz som

— um som que só o coração escuta.


E então, naquele instante,

olhei para o vazio

e ele se encheu de presença.

Seu rosto estava ali:

sorrindo,

balançando a cabeça,

como se dissesse em silêncio:

“Segue. Você está indo no caminho certo.”


O peito apertou.

O coração ficou aflito.

Segurei a mão da minha mãezinha.

Observei a família conversando,

comendo,

brindando.


E fiquei feliz.

Porque o maior aprendizado foi cumprido:

a família reunida.


A missão continua.

Agora somos dez.


A madrugada chega.

Vamos dormir.


O travesseiro chora em silêncio.

A oração vem forte,

cheia de falta.

Faltou aquele “Feliz Natal”

que sempre me enchia de alegria.

Faltou o “Feliz Natal, fio, eu te amo”

sussurrado no ouvido.

Faltou o abraço que não chegou.


Ah, pai…

que saudade.


A casa acordou diferente.

Um pouco triste.

Ninguém disse “bom giorno”.

Os sorrisos estavam tímidos,

meio aprendendo a existir de novo.


É isso.

Um Natal diferente.

Com uma ausência que não tem como não sentir.


Mas também com amor.

Com memória.

Com laços que permanecem.


Porque quem parte

nunca vai embora por completo.

Fica nos gestos,

nas orações,

nos silêncios…

e, principalmente,

no amor que não acaba.