Uma noite que não cabia no tempo

Sexta-feira, 27 de março.
Dia Internacional do Teatro. Mas, em Sorocaba, a data ganhou outra dimensão — tornou-se símbolo vivo de reconhecimento, afeto e legado.

Não era uma noite comum. Era daquelas que permanecem.

Entre luzes, vozes e memórias, Júnior Mosko retornava, em essência, àquele menino que fazia do improviso um palco e da imaginação um espetáculo. Um menino que, mesmo quando não tinha plateia, tinha o essencial: o olhar amoroso de seu pai, José Maria, e o acolhimento de sua mãe, Benedita Mosconi. Ali começava tudo.

O tempo passou — e com ele vieram a USP, a conquista do 13º lugar em Artes Cênicas, os anos de estudo contínuo, da especialização ao doutorado, sempre guiado por uma inquietação bonita: aprender para transformar. Tornou-se referência no teatro da criança, para a criança, com a criança — um território onde arte e humanidade caminham juntas.

Em 2001, Sorocaba passou a fazer parte dessa história. À frente do Teatro do SESI, Júnior não apenas dirigiu — ele cultivou. Projetos nasceram, vidas foram tocadas, caminhos foram abertos. E quando, após duas décadas, encerrou esse ciclo, não houve despedida — houve continuidade, com a Escola Fazendo Arte com Júnior Mosko, onde o ensino segue vivo, pulsante, necessário.

E então, naquela noite, tudo se entrelaçou.
A abertura, com Teresa Badini entoando o Hino Nacional, trouxe solenidade e emoção. O vereador Dylan Dantas, propositor da homenagem — aprovada por unanimidade —, deu forma institucional a um sentimento que já era coletivo: o de gratidão.

A Orquestra de Violeiros de Sorocaba, Zé Franco, emocionou profundamente o público. O som do berrante ecoou como memória viva, e Vida de Boiadeiro, canção que seu pai entoava ao violão, atravessou o coração de todos. Era mais que música — era presença.
Vieram então os discursos — e cada fala parecia revelar uma mesma verdade: Júnior transforma pessoas.

Rosângela Perecini falou do amor vivido na Fazendo Arte. Júlio Cesar destacou o profissional incansável. Jane Karstoqui trouxe à tona o mestre que sustenta e encoraja. Zamuner reconheceu sua influência na cultura. José dos Santos reforçou o poder de transformação de sua trajetória.

E Ana Cristina, emocionada, reafirmou algo que ecoou por toda a noite: Júnior pensa sempre no coletivo — e, rompendo o protocolo, traduziu gratidão em um abraço.
Então, o momento mais simbólico.
A entrega da Medalha “Dr. Enéas Carneiro do Mérito Estudantil” — honraria que reconhece aqueles que dedicam suas vidas à educação, ao conhecimento e à formação humana. Mais do que um título, um compromisso público com o futuro.

E, como quem entende que nenhuma conquista é individual, Júnior chamou sua família para estar ao seu lado. Porque sua história sempre foi construída em conjunto. A medalha, ali, ganhou muitos nomes, muitos rostos, muitos corações.
A noite seguiu.
O coral da NUPEP emocionou.
A oração de São Francisco silenciou.
E então, veio sua voz.
No discurso, Júnior não falou de si — falou de origem. Falou de família. Falou de seus pais educadores, base de tudo. E, em um dos momentos mais profundos da noite, trouxe à tona a imagem de uma cadeira vazia.
Pela primeira vez, seu pai não estava ali fisicamente.
Mas estava.
Estava no gesto.
Estava na memória.
Estava no amor que não se ausenta.
Júnior revelou que carregava consigo o anel de formatura de professor de seu paizinho. E, naquele instante, a ausência se transformou em presença viva. A cadeira podia estar vazia — mas o legado, jamais.
E, com a humildade que o define, em uma noite que era sua, ele mais uma vez desviou o olhar de si para o coletivo. Fez um apelo firme e sensível: que os professores sejam valorizados, respeitados, reconhecidos — pela sociedade, pelo governo, por todos nós.
Porque, para ele, educar é um ato de amor contínuo.
E ninguém educa sozinho.
Assim, ficou claro:
Júnior Mosko é família.
É memória.
É estudo.
É arte.
É fé.
E, acima de tudo, é coletivo.
Uma noite que não termina — porque há presenças que nunca se vão, e histórias que continuam sendo escritas, mesmo depois do último aplauso.