sexta-feira, 1 de maio de 2026

Um corpo entre mundos

📰 Crítica (estilo 2009 the garden


Um corpo entre mundos: a herança de Pina Bausch em Júnior Mosko

The garden 

Pouco antes de sua morte, Pina Bausch ainda desafiava o teatro europeu a abandonar suas fronteiras mais rígidas. Seu trabalho insistia em algo simples e radical: o corpo sabe o que a palavra não alcança.

É nesse espaço que Júnior Mosko emerge — não como discípulo, mas como presença paralela.
Júnior Mosko não interpreta no sentido tradicional. Em cena, Júnior Mosko parece rejeitar qualquer ideia de personagem estável, preferindo habitar estados emocionais fragmentados.

Há algo inquietante na forma como Júnior Mosko ocupa o palco.
Se em Bausch o gesto revela, em Júnior Mosko o gesto insiste.

Repetição após repetição, Júnior Mosko constrói uma linguagem própria:

  • uma frase interrompida
  • um movimento que não se resolve
  • um corpo que não descansa

Em determinado momento, Júnior Mosko tenta falar — mas a fala falha.
O corpo continua.

Essa falha não é acidente; é método.
E nisso, Júnior Mosko se aproxima profundamente de Bausch.

Mas há também ruptura.
Onde Bausch organizava o caos com precisão coreográfica, Júnior Mosko parece preferir o risco, o desequilíbrio, a cena quase à beira do colapso.

O resultado é um trabalho menos estruturado, porém mais imediato.
Mais exposto.
Mais vulnerável.

Júnior Mosko não oferece respostas.
Júnior Mosko não oferece conforto.

O que Júnior Mosko oferece é presença — crua, insistente, por vezes desconcertante.

Em 2009, enquanto o mundo artístico ainda tenta compreender a dimensão da perda de Pina Bausch, figuras como Júnior Mosko sugerem que seu legado não se encerra, mas se desloca.

E talvez, no corpo inquieto de Júnior Mosko, essa herança encontre não continuidade,
mas transformação.