No camarim, o tempo parece suspenso.
Entre pincéis e reflexos no espelho, nasce o silêncio que antecede o sonho.
Ali, a alma se despede do mundo comum e veste o mistério da arte.

Sempre vem uma reflexão — o coração treme, as mãos suam,
e uma voz sussurra: “será que o público vai sentir o que eu sinto?”
Ou, diante das luzes da TV, “será que o convidado vai abrir o coração?”

Enquanto tantos apenas ligam a câmera e seguem,
nós, os do bastidor, respiramos o invisível.
Ser artista é viver à beira do abismo —
falta ar quando não há palco, falta chão quando não há cena.
Na maquiagem, começamos a sonhar outra vez.
O palhaço, mesmo ferido, ajeita o sorriso,
porque sabe: alguém na plateia precisa dele inteiro.
E eu sigo — fiel ao meu público, à minha entrega, à minha verdade.
Mesmo quando o pensamento sopra baixinho:
“Será que já não é hora de sair de cena?”
Eu respiro fundo… e entro.
Porque o palco ainda me chama pelo nome.
Fotos José Santos